‘Contra-Egum’

Na diáspora afro-brasileira, conhecemos o “contra-egum” como um cordão feito de palha e búzios que amarramos nos braços e tornozelos do recém-iniciado no Candomblé, devendo ser usado durante um ano após a iniciação. Tradicionalmente, explica-se que essa proteção é necessária porque, ao se iniciar para um òrìṣà (orixá), o iniciado passa a ser envolto por uma energia divina que pode atrair espíritos de mortos perdidos. O “contra-egum” serviria, então, para evitar essa atração indesejada, permitindo que o iniciado mantenha-se o máximo possível na energia da divindade à qual se consagrou.

Contudo, uma análise mais profunda da língua e cultura yorùbá nos leva a questionar essa interpretação. Primeiramente, é importante esclarecer que a associação da palavra “egum” com Eégún no yorùbá está incorreta. No idioma yorùbá, “Òkú ọ̀run” (pronuncia-se ocú órum) é o termo usado para todo e qualquer espírito. Uma pessoa quando morre torna-se um òkú ọ̀run.

Eégún, por sua vez, é a contração da palavra Egúngún, referindo-se a um espírito poderoso, um òkú ọ̀run que passou por ritos específicos em vida e após a morte, continuando uma trajetória espiritual no pós-vida. Portanto, todo Eégún é um òkú ọ̀run, mas nem todo òkú ọ̀run é um Eégún.

É crucial entender que existem diversos cultos para lidar com ancestrais e pessoas mortas na terra yorùbá, como Àgẹmọ, Ìgunnukó e Orò. Egúngún é apenas um deles, e não são todos os yorùbá que o cultuam.

Um detalhe linguístico importante é que Ègún (note a diferença na grafia) significa “maldição” em yorùbá. Isso nos leva a considerar que o “contra-egum” poderia, na verdade, ter sido originalmente um amuleto contra maldições, não contra espíritos.

Ser amaldiçoado é um temor significativo na cultura yorùbá, com algumas maldições supostamente capazes de causar loucura ou visões perturbadoras (como ver sombras de pessoas no escuro e não permitam que você durma a noite pro resto da sua vida). É possível que essa associação tenha contribuído para a confusão na diáspora entre proteção contra maldições e proteção contra espíritos.

Além disso, não é correto afirmar que todo ancestral poderoso é um Eégún e deve ser cultuado em Egúngún. Os yorùbá não defendem essa ideia. O correto é dizer que todo ancestral é um òkú ọ̀run, e através de ritos específicos, pode-se dar poder a ele para que “entre” em algum culto específico.

Considerando esses aspectos linguísticos e culturais, é provável que o “contra-egum” tenha sido inicialmente um amuleto contra maldições. Com o tempo, devido à proximidade fonética entre Ègún (maldição) e Eégún (espírito poderoso), pode ter ocorrido uma reinterpretação na diáspora, levando à atual compreensão como proteção contra espíritos.

É importante notar que na cultura yorùbá não faz muito sentido ter um amuleto para “afastar espíritos” ou “espíritos poderosos”, pois esses termos não são usados dessa forma. Um yorùbá não definiria “espírito” como Eégún, mas sim como òkú ọ̀run.

Por fim, é possível que o conhecimento original sobre o “contra-egum” tenha se perdido ou se transformado ao longo das gerações na diáspora. O atual cordão de palha com búzios no tornozelo pode ser uma versão simplificada ou adaptada de um amuleto mais complexo contra maldições.

Esta reflexão não visa desmerecer a tradição do Candomblé, mas propor uma compreensão mais profunda das origens e significados desses elementos rituais, baseada na língua e cultura yorùbá. Entender essas nuances pode enriquecer nossa apreciação e prática das tradições afro-brasileiras.

Que Ọ̀rúnmìlà e os irúnmọlẹ̀ te concedam sabedoria e abundantes bênçãos por toda a eternidade!

Até mais! 😊

Publicado por

Awo Fáfúnmólú Oyékàlẹ̀

Sou um paulistano apaixonado pelo Brasil e por seu desenvolvimento espiritual, religioso e cultural, que busca estudar esse desenvolvimento também de forma acadêmica. Sou sociólogo e iniciado em Ifá, Stregoneria e Caatimbó. Meu objetivo é praticar essas tradições e estudar como elas influenciaram o Brasil-mágico que conhecemos hoje.

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